Justificativas

Andava com saudades da minha poesia.
E ela andava com vergonha de se exibir.

As crias dos mestres a inibem.

Mas tem tanto sem-vergonha debaixo de mensagens levianas.
Por que minha poesia haveria de se esconder?

Afinal, o que se teria a perder?

Os direitos?
A esquerda?
O centro; ou a periferia?

O que temer, afinal, além da não-poesia?

Nós encantados

Nós encantados.
Fios desencapados
Em roteiros curtos
Circuitos enladeirados
Na capital do Estado.

Em nossa polissemia,
A manga decora a manga na manga.
E a gente manga de quem nunca se viu,
De madrugada,
Mangá.

Somos maracujá!
Suprassumo delirante.
Caos em cais tranquilizante.
Pro néctar ficar concentrado
É só comemorar!

Audição

Ouço o som da vontade.
O som do que amo, do que espero.

Ouço o som do que apraz.
Ou se perturba minha paz, ainda é, sim!, esse o som que me faz.

Ouço o som do que quero ver melhor.

Tudo que ouço é o que está ao meu redor.

Lembranças

Todos os dias eu me lembro deles.
Elementos que compõem o que tenho pra mim como gente querida.

Sou de sumiços, de palavras e aparições poucas.
Mas tenho por cada exemplar um carinho…

Todos, na parede da memória, quadros que não trazem dor.
Lembranças encantadoras, tal Belchior e a genialidade que embala e embalou.

E eu pergunto à vida:
O que foi feito da minha gente querida?

E eu pergunto à vida:
O que foi feito da minha gente, querida?

Bloqueios

Muros cessam Rumos.

Duas palavras.
Duas letras trocadas.

E um sentido interrompido na sentença caminhada.

Lambrequins

Os manequins deram para engordar nas vitrines.
E a novidade obrigou os lojistas a fazer lipo em tecidos mortos.

Só que as células recrudescentes, insistentes, já estavam lá de novo.
E o fenômeno subversivo prejudicou as vendas no verão.

O estoque ficou comprometido. O culto, vilipendiado.
Alterou-se a angulação das matérias da estação.
E o conteúdo sobre a forma, como ficaria então?

Nos corredores, já impregnados de adiposas feições,
Os modelos adornavam um árduo desfile diário,
Onde a banha tornava mais plausível nossa utopia.

Era um rococó retroativo na passarela de despropósitos. Lambrequins…
Confeitos nesses novos manequins, contra a rotina escura.
Causas contra efeitos de uma dura arquitetura.

É um novo tempo ou sempre foi assim?

É um movimento ou sempre foi assim?

Meu chorar

Meus sorrisos são da verdade que adotei
Para exibir a parentes, amigos e companheiros de festejos.

Tal qual se tem a ideia do pranto,
Não sou de me debulhar em público nem sozinho.
Mas choro na frente de todos com letras e versos.

Minha emoção é inventar a angústia que não conheço em mim,
Com os olhos submersos em caracteres
E o peito carregado de qualquer estímulo.

Meu chorar é escrito assim.
Afinal, “lágrimas” e “lágrimas” são palavras.